terça-feira, 13 de novembro de 2012

Passagens por um livro

"No dia 16 de novembro, quem visitar os Quiosques de Refresco poderá ler passagens de O Ano da Morte de Ricardo Reis, numa iniciativa que integra os 90 Anos de José Saramago, Dia do Desassossego, em colaboração com a Fundação José Saramago. A todos os visitantes destes espaços será oferecida uma passagem do livro, uma pequena frase da obra que liga Saramago a Pessoa e ambos a Lisboa." Mais informações aqui.

Para reconstruir Lisboa

"(...) o livro da minha vida é "O Ano da Morte de Ricardo Reis" porque me trouxe a Lisboa, porque me ofereceu um país, porque me ofereceu uma língua - não a falo, mas traduzo-a - e sobretudo porque me proporcionou viver com uma pessoa absolutamente admirável, José Saramago.(...)

quando o acabei decidi que tinha que vir a Lisboa, não tanto para conhecer o autor, mas a cidade que se descrevia (... estávamos no ano de 1986, era 14 de Junho, vim a Lisboa porque queria conhecer a cidade, que tinha encontrado no livro e que me parecia belíssima. (...)

José Donoso (o escritor chileno, e eu concordo com ele) escreveu assim mais tarde: se Lisboa e Dublin fossem destruídas, poderiam ser reconstruídas com o espírito que habita "Ulisses" de Joyce e "O Ano da Morte" de José Saramago."

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O menú da semana

São sopas, senhores, são sopas. Aqui fica então o menu para a semana: Segunda-feira: Grão com Espinafres | Terça-feira: Cenoura com Agrião | Quarta-feira: Cogumelos com Salsa e Aipo | Quinta-feira: Feijão Manteiga com Batata Doce | Sexta-feira: Alho Francês com Maçã. Acompanhadas de uma fatia de deliciosa broa de milho, todas elas em versão cremosa. Como um abraço que vem de dentro.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Dos perigos de pensar o teatro

Os quiosqueiros já foram ver e recomendam a peça "Os Desastres do Amor", que a Cornucópia tem actualmente em cena. É de resto a última programada pela companhia, uma vez que os apoios para 2013 não estão garantidos - e logo, mais uma razão para irmos ao teatro, como forma de apoio às artes. O que só se torna um gosto ainda maior diante de um elenco notável, uma encenação audaz e um texto inteligente - que também é um puzzle bem montado de excertos de textos de Pierre de Marivaux, permeado por uma fina camada de ironia, qual fio condutor.

A Verdade, a Felicidade, o Amor, a Virtude e o Escrúpulo encontram-se num jogo que também envolve deuses do Olimpo e comuns mortais. Como quem procura o equilíbrio num limbo entre o bailarico popular e o hotel de luxo, como quem diverte e quem questiona. E isto continua a ser um perigo.

Teatro da Cornucópia: Rua Tenente Raúl Cascais, 1-A em Lisboa. De terça a sábado às 21h00 e domingo às 16h00, até 25 de Novembro.

"O Teatro da Cornucópia regressa ao tons de comédia com ‘Os Desastres do Amor’, espectáculo que Luís Miguel Cintra concebeu a partir de vários textos de Marivaux (1688-1763) e que se oferece ao espectador como um delicioso mergulho no mundo dos deuses, da luta entre o Bem e o Mal, do confronto entre as virtudes e os defeitos humanos. Mas este é também um espectáculo em que se repensa o amor e a fo rma como a moral vigente condiciona a felicidade individual." Ana Maria Ribeiro, in Correio da Manhã

"Costumamos ir à Cornucópia para ver espectáculos maximizados para a metafísica e podemos convencer-nos que, desta vez, temos uma festa de possibilidades em torno do tema doce do amor. Só que, bem vistas as coisas, sair dali a pensar que Cintra cumpre a sua palavra de nos falar de outra coisa que não seja a crise, será a crise da própria compreensão. Tudo aquilo que nos é dado a ver é a paisagem da crise antes da crise, sob a crise, fundamento da crise, a crise da nossa ligação ao mundo. A crise da autenticidade, que levará sempre à crise da cidade." Porfírio Silva, in Machina Speculatrix

"O que quer que seja que aí venha, para Luís Miguel Cintra, como para Marivaux no século XVII, importa ler, revelar, acreditar de novo num "delicado prazer de descobrir os meandros da alma humana, um tal prazer e tudo entender, que dá a volta, e volta a trazer ao teatro a alegria". (...)

Teatro de inconformado, portanto, mais do que inconformista, este Os Desastres do Amor. Peça feita de escolhos, de coisas que ficam, das representações pagãs de Pasolini, dos quadros com corpos assustados de Fragonard, com músicas que cruzam o sentimentalismo de Nino Rota com a anestesia da música brasileira. Peça feita com amigos porque "há ainda espaços de trabalho em que isso existe e muitos mais existiriam se a burocracia, que não sabe o que é a felicidade nem o prazer, não os fosse matando até morrer ela de vaidade, agarrada ao que não levará consigo". Peça feita para amigos, que é o que se chama a quem quiser recusar uma relação com o teatro igual à da televisão, "normalizada, banal, europeizada".

(...) Mas o que assalta Cintra, nesta peça que é um ponto da situação da "consequência do esvaziamento" que hoje vivemos, é o mesmo que levou Marivaux a estes textos tão perturbadores: "Nós, a quem o universo agitado desde há muito devia ter transmitido uma experiência tão vasta e tão profunda, que uso fizemos dessa prodigiosa colecção de ideias que, no seu entender, partilhámos por herança?"E, por isso, quando nos fala de Os Desastres do Amor, Cintra começa sempre as suas frases com intenções: "eu desejo", "eu procurei", "hoje, acho". Repare-se na última palavra usada por Cintra na peça: "Fuck." Como Kubrick, em De Olhos bem Fechados, coincidência dir-nos-á o encenador, como se a palavra, uma "marivaudage", ficasse entre grito de resistência e desabafo sentido. "Acredito que o futuro não será só barbárie. Mas a Cultura ajudará a que nós disso tenhamos consciência", escreve o encenador. Se isto não é um manifesto de uma alma nova, não andará longe." Tiago Bartolomeu Costa in Público

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Strindberg em Lisboa

"No outro dia li no jornal que um homem se tinha divorciado sete vezes e, consequentemente, se tinha casado também sete vezes. No final, quando já tinha noventa anos, foi a correr casar-se outra vez com a primeira mulher. É isto o amor. Nunca cheguei a perceber se a vida é uma coisa séria ou apenas uma farsa." August Strindberg in “Dança da Morte”

Dança da Morte fala-nos de nós, da crise do íntimo e do jogo perigoso que consiste em procurar no outro a culpa das nossas escolhas e falhanços individuais. Retrato diabólico e desolado da vida de um casal, fechado no espaço claustrofóbico de uma sala e isolado do mundo, fala-nos de identidade e de carácter, desse jogo infinito entre o medo e o desejo. Miguel Guilherme, Isabel Abreu e Sérgio Praia defrontam-se numa releitura intensamente realista e psicológica deste drama íntimo, um texto fundador da dramaturgia contemporânea que marca o regresso de Marco Martins ao palco do São Luiz.

De quarta a sábado às 21h00 e domingo às 17h30. Até 17 de Novembro.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Abóbora laranja

Juramos que não é efeito secundário do "Halloween", porque o nosso amor pela abóbora é daquelas relações doces que duram o ano inteiro. Hoje, ela é a personagem principal do nosso creme, com uma pitada de laranja. Convosco, as sopas da semana...

Segunda-feira: Abóbora com Laranja | Terça-feira: Couve Flor com Hortelã | Quarta-feira: Ervilhas com Coentros | Quinta-feira: Feijão Branco com Repolho | Sexta-feira: Courgete com Queijo.

Foto gentilmente cedida por Monte do Laranjal.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fortuna no teatro

Amor na vizinhança, pela vizinhança, para a vizinhança. Já em cena, até dia 25 de Novembro, OS DESASTRES DO AMOR Ou FORTUNA PALACE (uma adaptação e colagem de peças em um acto ou diálogos de Pierre de Marivaux), pelo Teatro da Cornucópia. De terça a sábado às 21h00 e domingo às 16h00.

"Felícia, uma viúva elegante e bem posta, madura e bem conservada, passa férias no Fortuna Palace, hotel de que é dona uma fada sua madrinha. Felícia quer ser feliz, honesta, e ao mesmo tempo encontrar o novo partido que resolva a sua situação económica. A madrinha, prepara-lhe uma lição dolorosa que lhe mostrará como é o mundo, coisa que ela parece desconhecer. Cruzar-se-á com o deus Amor e com várias personagens daquele micro-mundo de ricos e parasitas que brincam aos deuses do Olimpo. Chega a haver vítimas: a Modéstia e o pobre “escort” de luxo a quem chamam Apolo, deus das Artes são assassinados. Felícia aprende a resignar-se à desilusão. O amor não tem lugar naquele Fortuna Palace. É uma comédia que pareceria dos nossos dias se eles tivessem tempo e espaço para pensar nestas coisas."